Archive for December, 2007

you owl me.

Bastos era dos soldados mais safos do quartel. Ao mesmo tempo que demonstrava interesse pela vida militar, era capaz de acumular tantas punições quantas fosse possível. Tinha um porte atlético e sempre era destaque nas competições de melhor aptidão física. Seu exercício preferido era o que demonstrava a quantas andava sua auto-estima: lá no alto como suas pernas na sua flexão-plantando-bananeira. Fazia 15, 20, 25…e todos o adoravam, os mais fracos espantados e os mais fortes cheios de inveja.

Em uma das suas dezenas de punições, ficou preso por 30 dias. O motivo foi a briga com um outro soldado que terminou com Bastos de olho roxo. Não se importava muito em ficar preso, o que mudava era ter menos gente para ouvir suas histórias.

Depos de 25 dias preso, Bastos curiosamente tinha se tornado um pouco menos falador. Chamava menos pelos outros soldados que estavam na guarda do quartel e brincava menos sobre a qualidade da comida. Alguns diziam que tinha sido prisão demais, outros, que foi a dose certa para mudar o garoto. A verdade era que Bastos estava mudado. Tanto mais sério quanto mais esquisito.

Na noite da véspera de sua saída da prisão, Bastos acordou por volta das 3h incomodado com o PIO de uma coruja. Sem saber se era sonho ou verdade, resolveu levantar-se da cama e vasculhar a cela. Passou os olhos pelo que conseguia enxergar e identificou a coruja no pé de sua cama. O bicho estava imóvel, ohando nos olhos de Bastos e piando como se falasse com ele. Bastos sentiu um arrepio e deu um passo para trás receoso. Olhou a sua volta como se procurasse algo para espantar a coruja e viu apenas sua cama de cimento, sua manta verde oliva e seus chinelos. Bruscamente agarrou a manta em dois pontos e se jogou por cima da coruja, cobrindo-a facilmente. O que se passou depois não é história para os fracos de estômago, posso dizer, para resumir, que a coruja sofreu.

No dia seguinte Bastos foi liberado. Sentia-se bem, o humor havia melhorado e já falava tanto quanto antes. Mas alguma coisa tinha mudado. Algo ficou daquele tempo na prisão. Não sentia estar tão forte quanto antes. Lembrava de ter se exercitado até quase o fim dos dias naquela cela. Mas agora sentia-se fraco. A prova de fogo seria o seu exercício preferido. Tinha feito algumas flexões na prisão, mas depois de ter sido liberado ainda não havia tentado. Colocou-se em posição. Um, dois e…seu braço torceu-se como um galho verde e Bastos caiu com a cara no chão. Dessa vez ganhou não um, mas dois olhos roxos.

Até hoje Bastos foge de corujas. Culpa aquela coruja que veio visitá-lo na cela pela sua desgraça. E agora tem que andar pelo quartel e ouvir pios de corujas e risos por onde passa.

pierrot le feu.

Naquela noite os soldados completariam 2 semanas de treinamento de tiro com fuzil, parte essencial do estágio de preparação para o serviço no quartel (muitas semanas mais seriam necessárias para um treinamento de guerra).

Eu já somava 2 semanas de noites mal dormidas. Ia dormir muito tarde e o barulho dos mais de 200 disparos diários me seguiam até minha cama.

Mesmo que o trabalho fosse simples e entediante, o cansaço era inevitável. Aproveitava o ócio relativo para ler um livro que sempre quis ler, mas nunca lembrava de comprar: “Fogo Morto”. Parte da vontade vinha da importância do livro e parte de um encontro casual, em 2004, com a neta do autor em Brasília. Lendo cerca de 15 páginas por noite, sob a luz fraca da ambulância, não conseguiria terminar o livro até o fim do treinamento.

No final de cada dia de treinamento sempre sobrava alguma munição. Eu e os outros oficiais ficávamos responsáveis por gastar essa munição sobressalente. Apesar de não me sentir muito a vontade com um fuzil municiado na mão, depois de alguns tiros, aquilo parecia um pouco divertido. Naquele dia tinha decidido que daria apenas uns 20 tiros.

Dei uns 5 tiros em rajada e pensei em continuar os restantes um a um. Dei mais um tiro e ouvi um som diferente. Alguma coisa como um tiro na água. Desviei o olhar da mira do fuzil para ver o que tinha acertado. notei apenas que, no corredor escuro, vinha em minha direção uma fumaça bem branca e densa. Chamei outro oficial mais experiente para ver e perguntei se aquilo era normal, se ele já tinha visto alguma coisa assim. Ele me respondeu de forma displicente: “liga não, doc, é fogo morto”.

dehors de la tète.

Da seqüência de eventos que me levaram a aparecer sentado naquela árvore eu não lembro, mas estava ali, sentado no primeiro galho de uma grande árvore ao lado de Elizabeth Savalla.

Algumas pessoas sentadas de frente para nós, dispersas sobre o gramado, nos observando com rostos tranqüilos, sorridentes, davam a impressão de ser aquela uma aula, uma aula de teatro provavelmente. Não lembro o que era dito, apenas que seus gestos eram largos e que Elizabeth Savalla olhava apenas para mim.

Olhava em meus olhos, sorria, falava e abria com freqüência os braços para ilustrar, talvez, alguma cena. Uma aula sim e eu parecia ser o único aluno, ao seu lado, ouvindo atento, seus olhos nos meus.

Mais alguns segundos daquilo (eu deveria estar ali há algum tempo) e sinto-me constrangido. Olho para o relógio e apenas sei que faltam 15 minutos para o fim da aula. Desço do galho e sento-me agora de frente para a árvore como todos os outros alunos. Elizabeth Savalla olha novamente em meus olhos, uma mão no peito e outra em minha direção e com um semblante triste diz “you left!”.  Sinto sua decepção.

No final da aula sou questionado por ela: “o que achou da aula?”. Lembro imediatamente do livro “Great Expectations” do Dickens e dos trejeitos da senhora abandonada no altar quando jovem que aparece no início do livro.

Minha professora ilustre diz ter visto os dois filmes baseados nesse livro e cita, inclusive, os atores principais dos dois. Falo alguma coisa sobre as cores do segundo e penso que talvez não seja educado comparar seus gestos largos e sua atitude em aula com uma senhora que foi deixada pelo noivo no altar e vive há anos da memória desse dia trágico.

Sem precisar despistar sou acordado e a cena se desfaz.

E dai? Bom, diante desse sonho, que nem foi bizarro, eu me pergunto: por que Elizabeth Savalla?

.

.