Archive for exi(s)t
assumindo
Mamãe já sabia. Havia discutido o assunto com minhas irmãs em algumas ocasiões. Minha dificuldade em contá-la tudo aquilo que senti por tantos anos não se justificava. De alguma forma já deixara evidente partes do que tanto escondia. Faltava-me coragem para organizar toda aquela angústia e transformar em um discurso libertador. Ouvira falar em lágrimas e longas conversas quando outras pessoas passavam pela mesma situação. No nosso caso foram alguns minutos, minha taquicardia e o seu quase desdém.
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Aceitei o “já sabia” de minha mãe considerando-o um “tudo bem” ou “isso não importa, amo você”. Agora sinto que pouco falei depois de tantas considerações. Sinto que minha angústia, aquele trem descarrilhado, encontrou um abismo para cair em silêncio.
about the unsaid
Quando revelo um segredo e não obtenho disso a normalidade que tanto esperava, fico com aquele nó na garganta, a sensação de que a catarse tão desejada não foi levada a cabo. Nenhum mistério. Revelo o segredo, mas isso não é o gatilho para o mais importante: o confronto entre a minha angústia e o seu julgamento.
Desejo ser julgado, questionado, sabatinado, o alvo das suas questões mais desafiadoras. Quero ser julgado para, finalmente, segredo dissecado, ser absolvido e continuar vivendo. Agora livre para cometer o próximo crime.
Por que o confronto não ocorre? O que não foi dito? Omito partes da verdade para barganhar sua compaixão. E você comodamente aceita minha meia verdade, talvez desejando encerrar o assunto. Meu segredo o deixa desconfortável e você prefere ouvir e esquecer. Percebo sua estratégia, mas me satisfaço com a aceitação que seu esquema transparece. “I win”.
Do i?




