looking around
Estou a procura do ponto no meio de toda aquela empolgação onde eu possa ter deixado minha razão.
Distante da confusão dos meus sentidos, até onde posso enxergar com algum dicernimento, vejo-me procurando explicar, de forma bem racional e esnobe, como me deixei levar.
Dentro dessa confusão também procuro explicar.
Explicar você.
assumindo
Mamãe já sabia. Havia discutido o assunto com minhas irmãs em algumas ocasiões. Minha dificuldade em contá-la tudo aquilo que senti por tantos anos não se justificava. De alguma forma já deixara evidente partes do que tanto escondia. Faltava-me coragem para organizar toda aquela angústia e transformar em um discurso libertador. Ouvira falar em lágrimas e longas conversas quando outras pessoas passavam pela mesma situação. No nosso caso foram alguns minutos, minha taquicardia e o seu quase desdém.
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Aceitei o “já sabia” de minha mãe considerando-o um “tudo bem” ou “isso não importa, amo você”. Agora sinto que pouco falei depois de tantas considerações. Sinto que minha angústia, aquele trem descarrilhado, encontrou um abismo para cair em silêncio.
about the unsaid
Quando revelo um segredo e não obtenho disso a normalidade que tanto esperava, fico com aquele nó na garganta, a sensação de que a catarse tão desejada não foi levada a cabo. Nenhum mistério. Revelo o segredo, mas isso não é o gatilho para o mais importante: o confronto entre a minha angústia e o seu julgamento.
Desejo ser julgado, questionado, sabatinado, o alvo das suas questões mais desafiadoras. Quero ser julgado para, finalmente, segredo dissecado, ser absolvido e continuar vivendo. Agora livre para cometer o próximo crime.
Por que o confronto não ocorre? O que não foi dito? Omito partes da verdade para barganhar sua compaixão. E você comodamente aceita minha meia verdade, talvez desejando encerrar o assunto. Meu segredo o deixa desconfortável e você prefere ouvir e esquecer. Percebo sua estratégia, mas me satisfaço com a aceitação que seu esquema transparece. “I win”.
Do i?
d&a
Augusto deixou seu estúdio às 18h pouco preocupado com o mau tempo que se insinuava. Quinze minutos depois entrava todo molhado pela porta dos fundos da casa de Danna. Desejava tirar toda a sua roupa e tomar um banho quente. Desejava encontrar Danna deitada no sofa da sala, sonolenta, assistindo a algum programa de que os dois gostassem. Desejava beijá-la. Sentia sua falta todos os dias às 18 horas e quinze minutos.
Tirou com dificuldade seu paletó de veludo preto, tamanho G, justo nos ombros, mas comprido demais nas mangas e na barra. Era sempre questionado pelas suas roupas se seu corpo tinha algum formato anormal. Jogou o paletó todo embolado em uma cesta de roupas sujas. Tratava com certa raiva essas peças que o desafiavam. E quando estavam sujas era impiedoso. Despiu-se de sua camisa. Listas brancas e de um azul muito claro. Verticais. Calça e sapatos tirados em 5 segundos. Ficou apenas vestido de sua boxer preta.
Queria encontrar Danna daquele jeito. Surpreendê-la seminu. Beijá-la com toda a saudade que sentia diariamente e emendar uma hora de sexo. Estar seminu e pensar assim já o deixavam excitado. Andou calmamente até a sala de televisão que ficava escondida atrás do escritório e da sala de jantar. O lugar preferido na casa. Seu lugar preferido no mundo. Puxou com força a porta corrediça de madeira de lei. O que viu na sala de televisão transformou seu rosto. CONTINUA.
na rede.
A tensão dos fios da rede que nos segurava era comparável apenas à rigidez dos músculos da sua bunda. Desejava tanto um beijo seu quanto enfiar minha vara latejante em seu rabo suado.
Aqueles dias de verão não poderiam ser mais excitantes.
cassino
Não sabia dizer em que noite estava, em qual cassino se encontrava, quem eram aquelas pessoas. Apenas sorria e segurava um copo quase vazio com as duas mãos. Sentia que estava mais uma vez iniciando uma fase de novas angústias. Essas fases sempre começavam com um branco, um lapso, aquela crise dissociativa, como chamava seu psiquiatra, o Dr Russo.
Já acostumada com suas crises, apenas parava e esperava que alguma coisa ou alguém desse uma pista do que se passava. Olhava o movimento da roleta e aquilo a deixava nauseada. “Número 23”. Tentava se lembrar do número do quarto onde estava hospedada. “Vence o senhor de traje Campari”. Olhava fixamente para aquele homem de terno vermelho, todo suado, peludo, reunindo fichas com os braços, numa voracidade que lembrava um demônio recebendo novas almas no inferno.
Queria estar longe dali. Mas onde? Não sabia dizer nem o seu nome completo. Teria que aguardar mais alguns minutos até que sua confusão passasse. Um gole da sua bebida. Fez uma careta. Aquilo era vodka e já tornara-se intragável. Olhou para o copo, estariam ali mais dois ou três goles. Sentiu-se novamente nauseada. Bebeu o que restava do copo. Outra careta. “Preciso parar de beber isso”, pensou. Suas crises dissociativas eram inevitáveis com vodka. “Garçom, um whisky por favor”. Disse, agora em um lugar mais familiar.
danna meets augusto.
Desenhando no ar com a fumaça do seu cigarro sem filtro, Danna pensava em Augusto. Nunca desejou tanto ser fotografada como naquele momento. Sentia-se bonita, cotovelos sobre o balcão, cabelos soltos, o sol da manhã em seu rosto pálido. Aquela aula já não chamava sua atenção. O curso de fotografia que tanto queria começar agora parecia ter sido o acaso colaborando com sua necessidade de encontrar um namorado. Augusto era o candidato ideal.
Estivera por acaso em sua mostra individual. Uma foto chamou sua atenção: um cão morto, talvez atropelado, com o intestino para fora da barriga. Era nojenta, mas fazia algum sentido para ela. Pensou em todos aqueles cães mortos em estradas, avenidas movimentadas e o descaso dos motoristas, transformados em assassinos pela ingenuidade daqueles animais perdidos.
Pensou em procurar o fotógrafo para perguntar sua intenção, mas sentiu-se imediatamente encabulada por ter tantas considerações sobre uma foto tão grosseira.
Não foi preciso nenhum movimento, Augusto estava atrás de Danna observando sua nova admiradora. “Gostou?”, perguntou-lhe quase ao pé do ouvido. Danna surpreendeu-se mais com a beleza de Augusto do que com sua investida. Seria aquele garoto de olhos verdes a sua nova tentativa de encontrar alguém.
o furto.
Cerca de cinco horas do dia em que descobri o motivo da sua mudança repentina de humor, desenhei um esquema do que seria a perfeita síntese do que sinto por você. Assim mesmo, um esquema. Fui sistemática e incrivelmente racional ao considerar que você talvez fosse o homem da minha vida.
O furto da sua carteira não poderia ser a única razão da sua explosão de mau humor. Fiquei impressionada com a sua capacidade de se transformar, de repente, em um homem agressivo e sangüíneo diante de um simples furto. Isso me excitou ao extremo. Pensava constantemente em você transformando essa fúria em sexo inesquecível. Esse circo de emoções que você parecia viver era novo para mim. Impressionou-me mais ainda descobrir novas nuances no homem que parecia conhecer completamente. Meu esquema tornava-se então um fútil exercício para demonstrar algum controle sobre a situação. Na verdade estava perdida diante desse novo homem que antes pensava dominar.
you owl me.
Bastos era dos soldados mais safos do quartel. Ao mesmo tempo que demonstrava interesse pela vida militar, era capaz de acumular tantas punições quantas fosse possível. Tinha um porte atlético e sempre era destaque nas competições de melhor aptidão física. Seu exercício preferido era o que demonstrava a quantas andava sua auto-estima: lá no alto como suas pernas na sua flexão-plantando-bananeira. Fazia 15, 20, 25…e todos o adoravam, os mais fracos espantados e os mais fortes cheios de inveja.
Em uma das suas dezenas de punições, ficou preso por 30 dias. O motivo foi a briga com um outro soldado que terminou com Bastos de olho roxo. Não se importava muito em ficar preso, o que mudava era ter menos gente para ouvir suas histórias.
Depos de 25 dias preso, Bastos curiosamente tinha se tornado um pouco menos falador. Chamava menos pelos outros soldados que estavam na guarda do quartel e brincava menos sobre a qualidade da comida. Alguns diziam que tinha sido prisão demais, outros, que foi a dose certa para mudar o garoto. A verdade era que Bastos estava mudado. Tanto mais sério quanto mais esquisito.
Na noite da véspera de sua saída da prisão, Bastos acordou por volta das 3h incomodado com o PIO de uma coruja. Sem saber se era sonho ou verdade, resolveu levantar-se da cama e vasculhar a cela. Passou os olhos pelo que conseguia enxergar e identificou a coruja no pé de sua cama. O bicho estava imóvel, ohando nos olhos de Bastos e piando como se falasse com ele. Bastos sentiu um arrepio e deu um passo para trás receoso. Olhou a sua volta como se procurasse algo para espantar a coruja e viu apenas sua cama de cimento, sua manta verde oliva e seus chinelos. Bruscamente agarrou a manta em dois pontos e se jogou por cima da coruja, cobrindo-a facilmente. O que se passou depois não é história para os fracos de estômago, posso dizer, para resumir, que a coruja sofreu.
No dia seguinte Bastos foi liberado. Sentia-se bem, o humor havia melhorado e já falava tanto quanto antes. Mas alguma coisa tinha mudado. Algo ficou daquele tempo na prisão. Não sentia estar tão forte quanto antes. Lembrava de ter se exercitado até quase o fim dos dias naquela cela. Mas agora sentia-se fraco. A prova de fogo seria o seu exercício preferido. Tinha feito algumas flexões na prisão, mas depois de ter sido liberado ainda não havia tentado. Colocou-se em posição. Um, dois e…seu braço torceu-se como um galho verde e Bastos caiu com a cara no chão. Dessa vez ganhou não um, mas dois olhos roxos.
Até hoje Bastos foge de corujas. Culpa aquela coruja que veio visitá-lo na cela pela sua desgraça. E agora tem que andar pelo quartel e ouvir pios de corujas e risos por onde passa.
pierrot le feu.
Naquela noite os soldados completariam 2 semanas de treinamento de tiro com fuzil, parte essencial do estágio de preparação para o serviço no quartel (muitas semanas mais seriam necessárias para um treinamento de guerra).
Eu já somava 2 semanas de noites mal dormidas. Ia dormir muito tarde e o barulho dos mais de 200 disparos diários me seguiam até minha cama.
Mesmo que o trabalho fosse simples e entediante, o cansaço era inevitável. Aproveitava o ócio relativo para ler um livro que sempre quis ler, mas nunca lembrava de comprar: “Fogo Morto”. Parte da vontade vinha da importância do livro e parte de um encontro casual, em 2004, com a neta do autor em Brasília. Lendo cerca de 15 páginas por noite, sob a luz fraca da ambulância, não conseguiria terminar o livro até o fim do treinamento.
No final de cada dia de treinamento sempre sobrava alguma munição. Eu e os outros oficiais ficávamos responsáveis por gastar essa munição sobressalente. Apesar de não me sentir muito a vontade com um fuzil municiado na mão, depois de alguns tiros, aquilo parecia um pouco divertido. Naquele dia tinha decidido que daria apenas uns 20 tiros.
Dei uns 5 tiros em rajada e pensei em continuar os restantes um a um. Dei mais um tiro e ouvi um som diferente. Alguma coisa como um tiro na água. Desviei o olhar da mira do fuzil para ver o que tinha acertado. notei apenas que, no corredor escuro, vinha em minha direção uma fumaça bem branca e densa. Chamei outro oficial mais experiente para ver e perguntei se aquilo era normal, se ele já tinha visto alguma coisa assim. Ele me respondeu de forma displicente: “liga não, doc, é fogo morto”.




